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EXPRESSÃO DA MARCHA DE TRÍPLICES APOIOS

No discurso da marcha tem um montão de equívocos que, por serem apregoados repetidamente, acabam se impondo como verdade. Tenho notado que a marcha de tríplice apoio, vale dizer, a legítima, a verdadeira, vem sendo tratada por pessoas motivadas pelo "complexo arabizante" como uma coisa morta, "caída de moda" e tachada de andamento defeituoso e desequilibrado.

Não custa nada, pois, a gente recordar alguns conceitos, reduzindo a marcha tripedal à sua expressão mais simples.
Ressalte-se, de início, como tenho dito e redito, que marcha é uma dessas coisas que não se aprende na escola. Marcha é movimento ritmado, cômodo, sem atritos, sem saltos, sem ais nem gemidos, que o marchador é suave no seu pisar, amortecido pelo molejo das quartelas.

Marcha é coisa simples de ser sentida. Difícil de ser explicada. Menino ainda, perguntei um dia a um exímio "acertador" e berganhista de cavalos de minha terra como ele definia a marcha. Respondeu-me de pronto: "se não me perguntarem o que é marcha eu sei o que é marcha. Se me perguntarem o que o que é, sei não". Na verdade, marcha é vivência. É familiariedade. É intimidade ditada pelo dia a dia do criatório, no gozo do cavalgar por caminhos e veredas que parecem cobertos de algodão.

Há que distinguir, porém.

Andamento Marchado é uma coisa. Marcha Tripedal cravada no Padrão da Raça é outra. Marchados são todos aqueles andamentos em que, em qualquer fase da sua execução, o animal tem sempre um ou mais membros em contato com o chão.

São, pois, andamentos marchados: O PASSO, que é a marcha "mater", em que os apoios são alternadamente laterais e diagonais, porque o levantar de um membro faz-se antes do procedente se pousar, estabelecendo-se entre os apoios bipedais um curtíssimo apoio tripedal.
A ANDADURA, que é um andamento caracterizado pela associação dos membros laterais que se levantam e pousam no mesmo momento, fazendo-se ouvir duas batidas em cada passada. Por sinal, andamento natural em alguns cavalos. Aparece, às vezes, espontaneamente, nos poldros em face dos dolicomorfismo dos membros e braquimorfismo do tronco, mas desaparece com a idade. Também encontrada em cavalos velhos e fatigados.
ANDADURA DESUNIDA, em que o levantar e pousar dos membros de cada bípede não se faz simultaneamente, ou seja, em cada bípede o membro posterior levanta-se e pousa um pouco antes que o anterior do mesmo lado, ouvindo-se, em tais circunstâncias, quatro batidas em cada passada. A andadura natural é a dois tempos. A desunida, a quatro tempos. Nesta, embora os membros sucedam-se por bípedes laterais, perderam, contudo, o sincronismo do pousar e levantar. Esta modalidade de andadura correspondente ao que os antigos chamavam de "guinilha" que parece ser uma corruptela da palavra "guilledins" que os ingleses dão à andadura. O TROTE DESUNIDO é andamento a quatro tempos com dissociação das batidas dos bípedes diagonais. Antes e depois do apoio bipedal diagonal há um período de apoio monopedal, o que torna maior a velocidade e, consequentemente, a instabilidade. As reações são mais suaves que no trote ordinário. Diminuída a velocidade os períodos de projeção também diminuem, podendo mesmo desaparecer, tornando o andamento marchado, hipótese em que o equilíbrio será mais estável.
O TROTE CURTO é um andamento em que, em face do menor comprimento do passo, a velocidade é reduzida e as pegadas dos membros posteriores ficam atrás das dos anteriores correspondentes. Os períodos de projeção são pequenos e podem desaparecer, tornando o andamento marchado. Nesse caso, há um período de apoio quadrupedal entre os apoios diagonais, diminuição de velocidade e, consequentemente, aumento da estabilidade.
A MARCHA DIAGONALIZADA é um andamento em diagonal bipedal de dois tempos em que a base de sustentação passa alternativamente de um bípede para o outro, intercalando-se entre os apoios diagonais um apoio quadrupedal de curtíssima duração na troca das diagonais. Tanto quanto a andadura, a marcha diagonalizada é um andamento marchado - sem tempo de suspensão portanto, diferindo apenas nos apoios bipedais que na andadura se fazem nos bípedes laterais que se sustêm e se apoiam alternativamente e, na marcha diagonalizada ocorrem nos bípedes diagonais. Na marcha diagonalizada nunca o posterior de um bípede diagonal realiza a sobrepegada, já que isto importaria no "salto" do anterior correspondente, descaracterizando a marcha.

Como se vê o universo da marcha é muito extenso, partindo-se do conceito genérico de que marcha é o andamento em que o animal, em seu deslocamento, está sempre em contato com o chão. Marchados são, pois, além das marchas picada e batida, os andamentos transicionais denominados andadura marchada, andadura desunida, trote desunido, trote curto e marcha diagonalizada.

Assim, o padrão racial que no item andamento se limitasse à palavra marcha, marcha natural, andamento marchado ou expressões equivalentes, estaria inserindo em seu texto também os andamentos transicionais a que acima nos referimos sem a mínima conotação com a marcha do Mangalarga Marchador, do Campolina, do Pequira ou do Pêga, animais estes que se locomovem em marcha de tríplice apoio, tal como descrita em seus padrões raciais.

É imprescindível que se acentue que no universo que mencionamos só contam para os aficcionados da marcha as duas modalidades de andamentos marchados descritos nos padrões das raças marchadoras oficializados pelo Registro Genealógico do Ministério da Agricultura, e que são a "marcha batida" e a "marcha picada".

O selo que as distingue, a marca registrada que as diferencia dos demais andamentos marchados são os momentos de tríplice apoio, cuja incidência obrigatória numa passada dirão da qualidade de marcha.

Enfatize-se que os autênticos criadores de cavalos marchadores brasileiros quando falam em marcha, referem-se à marcha de tríplice apoio, ou seja, a marcha batida e a marcha picada. Dos demais andamentos marchados, que são andamentos transicionais, não cogitam eles, porque, na realidade a sua opção foi pela marcha tripedal, cuja comodidade resulta, em grande parte, da regularidade de seqüência e distribuição dos apoios e se acentuará na medida em que o cavalo permanecer mais tempo no chão.

Tenho ouvido de alguns árbitros em exposições e lido em alguns artigos referência à marcha batida como sendo um andamento a dois tempos e áspero. É um despropósito que denuncia ignorância no tema.

O vocábulo "batida" é consagrado pela nossa cultura eqüestre e integra o glossário dos termos hípicos brasileiros. Marcha batida é a que vem descrita nos padrões raciais de nossas raças de marchadores e é, e sempre foi, um andamento de média velocidade, a quatro tempos, com deslocamentos alternados dos bípedes em diagonal e em lateral, nitidamente descompassados, registrando em cada passada quatro apoios tripedais, dois apoios bipedais diagonais e dois apoios bipedais laterais. Ainda que o animal suprima na passada um tríplice apoio, vindo a apresentar três apoios tríplices, ao envez de quatro, estará em marcha batida de boa qualidade, muito embora uma marcha batida ideal registre, em seu diagrama, quatro tríplices numa passada completa, modalidade de marcha esta última restrita a um número hoje reduzido de animais com este diagrama no Brasil.

Mas, o que é inaceitável, por herético e desarrazoado, é denominar como marcha batida este andamento diagonalizado, a dois tempos, cultivado por um grupo de criadores, técnicos e árbitros, ao arrepio dos padrões raciais vigentes. Os vocábulos "picada" e "batida" acompanham o andamento de nossos marchadores desde a origem das raças em questão e não há como abrir mão deles sem grave violação de uma terminologia já devidamente consagrada pela hipotecnia nacional. Como sabido, confundir acepções é um grande mal em tecnologia. E no caso em foco, o emprego indevido da expressão em tela configura uma usurpação que cumpre rechaçar em nome do respeito aos criadores do passado e à história do mais apurado e cômodo cavalo social de sela brasileiro. Advirta-se, porém, que criar o cavalo marchador, ainda que de tríplice apoio, não é o suficiente. O produto tem que nascer marchador do ventre da égua, para se classificar como um Marchador autêntico. Trazer em si o gene da marcha, face a indiscutível herança genética da marcha. O autêntico Cavalo Marchador é o que "marcha sempre" e não aquele que tem, apenas, "momentos de marcha". Para o criador marcha ensinada, vale dizer, cavalo "feito na boca", não conta. A realização e o orgulho do criador não se esgotam no dizer "meu cavalo é um Marchador" e, sim, "meu cavalo produz Marchadores". Marchar não basta. Transmitir é preciso.

Cumpre ao Criador dosar os acasalamentos na perseguição de uma marcha de alta qualidade. Buscar sempre acasalar marcha com marcha e, entre estes, selecionar os mais cômodos, pois está comprovado, que a "maciez no andar", além de depender, entre outros fatores, de uma conformação especial do trem posterior, de determinada inclinação dos seus raios ósseos, é uma característica hereditária.

Fala-se muito hoje em dia numa "marcha de centro", que seria o andamento ideal. É pura invencionice. Na verdade, todos os gráficos que localizam o trote num extremo e andadura no extremo oposto, com a marcha situada entre ambos, ou seja, no centro, retratam uma situação equivocada, por isso que, na dinâmica do cavalo, a andadura é vizinha do trote e, devem ambos ser confinados na mesma região. É uma impropriedade, pois, sem qualquer lastro na cinemática animal, falar-se numa marcha do centro, pela simples razão de que não existe uma "marcha do centro".

Sobrepegada não identifica marcha. Identifica rendimento. Além do mais, o animal que "se cobre" pode estar marchando ou trotando. O Marchador tem que dissociar. Mas o dissociar não implica em marcha. No trote desunido há dissociação das batidas diagonais, ouvindo-se quatro batidas separadas, aos pares. No trote semi-desunido - que é o trote com dissociação de apenas um diagonal - resultam três batidas, uma de um bípede diagonal e duas dos membros do outro diagonal. Denomina-se trote semi-desunido de diante, se o cavalo galopa com o bípede anterior e trota com o bípede posterior; e trote semi-desunido de traz, se o cavalo trota com o bípede anterior e galopa com o bípede posterior.

Definir marcha, pois, em termos de retropegadas, sobrepegadas, ultrapegadas ou de simples descompasso ou dissociação das batidas pode gerar enganos fatais.

Na avaliação da marcha, há a considerar-se certos parâmetros que vêm sendo utilizados pelos criadores e que são: comodidade, etilo, regularidade, rendimento e resistência do animal.

Advirta-se que o quesito resistência tem muito a ver com o condicionamento físico do animal e não com a qualidade de marcha, de sorte que ele ficaria melhor situado em provas funcionais, tipo enduros e cavalgadas.

Outro item que merece atenção é o do rendimento, por isso que, em seu nome, tem-se assistido, nos concursos de marcha, verdadeiras provas de velocidade, usadas, não raro, para mascarar andamentos não compatíveis com o padrão da raça em julgamento.

Gostaria de acentuar aqui duas coisas que me parecem relevantes no particular em exame. Uma é que todo cavalo tem, para cada andamento, uma velocidade normal, bem própria, bem sua, que não pode exceder seu limite de forças. É indeclinável obrigação do cavaleiro conhecê-la, sabê-la dosar e apreciá-la afim de regular a marcha em harmonia com essa velocidade, poupando a montaria a esforços exagerados que responderão pela ruína precoce de seus ligamentos e tendões. O ritmo dos andamentos, por seu turno, está sujeito a modificações em função da conformação do animal, estatura, proporções, maneira de montá-lo ou conduzi-lo, estado de excitação, peso que transporta, a natureza, direção e inclinação do terreno sobre que caminha e a velocidade que se obriga que ele tome.

Outra advertência é no tocante ao fato de que com o aumento da velocidade o número de apoios tripedais de uma marcha batida de alta qualidade diminue em prejuízo da comodidade, com o conseqüente aumento do atrito vertical, sabido que o animal mais no chão, com maior tempo de apoio tripedal, apresenta maior suavidade no andar. Já na marcha picada o excesso de lateralização compromete a comodidade deste tipo de andamento.

Um cavalo, em percurso viajeiro e não muito acidentado, percorre, em bem definida marcha tripedal, de 8 (oito) a 10 (dez) quilômetros por hora. Esta foi a média por mim registrada nos bons Marchadores que montei, "acertei" e julguei ao longo da vida.

O Marchador não é um bom galopeador. E há razões ditadas pelo mecanismo dos andamentos. A marcha é um andamento natural a 4 (quatro) tempos. O galope normal é a 3 (três) tempos. A marcha é um andamento em que o animal não perde o contato com o solo. O galope é um andamento saltado. A marcha se caracteriza pelos momentos de tríplice apoio em cada passada. O galope é um andamento diagonal. Na marcha não há período de suspensão. No galope há suspensão acompanhada de projeção do animal. O galope é um andamento látero-diagonal-rolado de grande velocidade. A marcha é um andamento de velocidade média. No galope a base de sustentação é, a princípio, unipedal posterior, torna-se, em seguida tripedal anterior, bipedal diagonal, tripedal posterior e mono pedal - seguindo-se o período de projeção. Na marcha a base de sustentação se desdobra em apoios laterais e diagonais intercalados de apoios tripedais.

É, pois evidente que estamos frente a dois andamentos antípodas:

Marcha, andamento de 4 (quatro) tempos, em que o animal está em permanente contato com o solo, equilíbrio estável face á pluralidade dos membros em apoio.

Galope, andamento saltado, diagonal, assimétrico, cujos apoios monopedais, no início e no fim de cada passo, revelam grande instabilidade de equilíbrio nesses momentos.

O mais importante e decisivo: muito antes de um bom Marchador principiar a galopar, a ação de suas mãos é já desigual. Como o cavalo galopa sobre uma ou outra mão, muito antes de chegar ao galope o Marchador já ADIANTA um membro anterior, em face da dissociação ditada pela desigualdade de ação de seus membros. Daí o desequilíbrio da arrancada do Marchador ao galopar, ao contrário do que acontece na equitação diagonal.

Nada a opor que se exija do Marchador um galope por curto tempo, com o objetivo de exercitá-lo ou "despertá-lo" em determinadas circunstâncias. O que se condena é fazer do galope uma rotina na equitação do Cavalo Marchador, "viciá-lo no galope", porque daí nascem os andamentos bastardos que comprometem a marcha. Exigir de um Marchador, geometricamente plasmado para marchar, que galope, é violentá-lo, impondo-lhe um andamento que nada tem a ver com a sua dinâmica natural.

Outra questão a esclarecer resulta de teoria esposada por gente erudita e não erudita, de que a marcha nada tem a ver com a conformação do animal. Seria ela "um fenômeno determinado exclusivamente por fatores neurológicos e não por fatores morfológicos".

A afirmativa não se sustenta.

Dizer que o cérebro controla tudo, inclusive os movimentos, é proclamar o óbvio. Mas atribuir o andamento em marcha tripedal somente aos NEURÔNIOS, que são minúsculas células nervosas que em número de doze bilhões compõem o cérebro e aos muitos milhões mais de neurônios insertos no sistema nervoso, bem como às células GLIAIS que lhes provêem a sustentação, aos AXÔNIOS que transmitem as mensagens de uma célula para outra e daqueles para os DENTRITOS da célula seguinte, com as quais se ligam através de uma junção chamada de SINAPSE, é abusar da fantasia.

É importante em termos científicos deixar de lado o devaneio.

No estudo da fisiologia da locomoção é de se levar em consideração que a máquina animal se compõe de uma parte ativa, que são os músculos e de uma parte passiva que é o esqueleto. Ao atuarem sobre o esqueleto pelas suas contrações, os músculos locomotores modificam a angulação das alavancas ósseas, dando lugar não só aos andamentos, mas também às singularidades ditadas pelas mesmas.

Na verdade, anatômica e funcionalmente, os membros dos eqüinos formam um conjunto perfeitamente harmônico com participação ativa de cada componente. O esqueleto é o arcabouço de todo o corpo do cavalo e é a base para o sistema de alavancas que as articulações exercem. Os músculos atuam como transmissores da cinética do movimento aos tendões possibilitando a movimentação de todas as estruturas que formam e mantêm a estabilidade da articulação.

Sob o comando do Sistema Nervoso Central, este complexo estrutural é capaz de realizar de maneira natural e instintivamente, ou sob condicionamento, movimentos como flexão, extensão, adução, abdução e rotação DEPENDENDO OBVIAMENTE DO TIPO DE ARTICULAÇÃO. É por meio da combinação de cada um destes movimentos que o cavalo pode locomover-se das mais variadas maneiras. Colocar na ponta de um gráfico imaginário os estímulos cerebrais e na outra a marcha, como resultante exclusiva daqueles, rejeitando, no particular, a herança genética da marcha, bem como a correlação entre morfologia e andamento é fazer "tabula rasa" das leis que regem a dinâmica dos andamentos, sejam eles, passo, trote, galope, marcha, andadura e outros mais.

As diversas teorias emitidas sobre o andamento do cavalo, bem como, as leis que regem a mecânica da locomoção, desde o emprego do método gráfico na primeira metade do século dezenove por M. Marez, eminente Professor no colégio de França - método este que permitiu ao Capitão RAAB complementar os valiosos estudos sobre a locomoção, aos quais consagrou sua vida - não deixam lugar a qualquer dúvida sobre a influência da conformação do animal no tipo de andamento em que ele se locomove.

Aliás, versando o tema, acentua, ao tratar dos eqüinos, o conceituado Professor A. Di Paravicini Torres, In "Melhoramento dos Rebanhos", pág. 283:
"Em nenhuma outra espécie existe tanta correlação entre a conformação e a função do que nesta espécie. Pelo exame do exterior pode-se de antemão predizer qual a utilização indicada para cada animal, por isso, mais do que em qualquer outra espécie, o conhecimento da ezoognosia precisa ser profundo para se poder praticar uma seleção consciente".

Rematando esta questão, resta na baila a conclusão de que a marcha é uma característica genética, vale dizer, hereditária, que requer conformação especifica e certos ângulos de articulação e inclinações de raios ósseos comandadas, obviamente, pelo sistema nervoso central dos animais que, ao natural, apresentam esta modalidade de andamento.

Atribuir o andamento marchado exclusivamente à constituição nervosa do animal é absurdo tão grande quanto atribuí-lo unicamente à sua conformação. Mas é inegável que se todas as modalidades de locomoção eqüídea requerem estímulos neurais, o cavalo marchador, além de, obrigatoriamente, ser portador, em seu genótipo, do gene da marcha, há de apresentar, em seu fenótipo, as angulações ósseas e proporções lineares específicas do Marchador.

Pontofinalizando, repetirei aqui, que a marcha não é coisa de rés do chão. É fenômeno das alturas. Ela não nasceu na extensão do pampa, nem no alongado das planíces e baixadas que se perdem na linha dos horizontes. A marcha dos nossos cavalos é produto genuíno das montanhas de Minas. Foi ali, naquele cenário espetacular em que serrilhas gnassicas picam o azul das cordilheiras, que ela se firmou, por efeito de uma ginástica funcional secular, naqueles indivíduos possuidores já de disposição ou pré-disposição para marchar, e que acumularam num mesmo genótipo, uma série de fatos genéticos favoráveis às funções que se pretendia fixar.

De se registrar que foi, também, em elevações serranas de outras terras que a marcha se definiu. Assim o Peruano de Passo e o Passo Fino da Colômbia nas altitudes andinas, o Pônei da Islândia, o Berbere do Norte da África, os Garranos das montanhas ao Norte de Portugal. Foi bem mais tarde que a Costa Peruana, muito plana e desértica, definiu o diagrama da marcha lateralizada do "passo fino".

Com efeito a inclinação do terreno, as escarpas dos rochedos, os cerros alcantilados, as descidas bruscas pediam, em nome do equilíbrio e da segurança o descompasso dos membros e o permanente contato com o chão, que mais se acentua no apoio tripedal das raças de marchadores.

Não se conclua daí que da montanha nasce a marcha. A marcha, nsista-se, é genética, e para marchar o animal precisa, basicamente, antes de tudo e acima de tudo, conter em seu genótipo o gene da marcha. Mas foi a montanha que plantou, mais ainda, o cavalo no chão, acentuou nele a suavidade, tripedalizou definitivamente os seus apoios, refinou-lhe o estilo, obrigou-o a equilibrar-se melhor e deu-lhe a segurança dos que sabem onde e como pisam.

O Marchador Brasileiro é um conjunto de formas e movimentos que o diferenciam de quaisquer outras raças e resulta da genética, da morfologia e do andamento. De qualquer delas nunca poderemos prescindir por isso que, se faltar uma delas, não há se falar no legítimo cavalo de marcha tripedal. De nada me vale um cavalo de exterior imponente ou simplesmente aceitável dentro da raça, se ele se movimenta como um PSI ou um Árabe, já que estará ausente, então, uma característica básica, que é o seu andamento natural em marcha de tríplice apoio.

E, agora, o registro derradeiro.

Como sabido, a marcha não é um privilégio do nosso cavalo. Outros povos têm também seus marchadores.

De ressaltar, porém, que a marcha encontrada em outros países é, de um modo geral, um andamento que se caracteriza pelo avanço dos bípedes em apoios laterais, enquanto o nosso cavalo, além de apresentar este tipo de andamento em muitos marchadores, locomove-se numa "marcha", que é muito nossa, e que se caracteriza pelo avanço dos bípedes em apoios diagonais, originando a chamada "marcha batida", que era um dos orgulhos daqueles tempos históricos das Gerais em que o triângulo impresso na poeira dos caminhos e trilhas coloniais pelos nossos marchadores se confundia com as pegadas dos bandeirantes, inconfidentes e escravos que escreveram a epopéia do barroco mineiro, dos sonhos libertários e da opulência ditada pelo ouro das minas e pelos diamantes que brotavam das grupiaras.

Na verdade, os marchadores brasileiros são obras de arte em movimento, e são grandes pelo seu sangue quente, seu temperamento vivo, sua comodidade impar, sua docilidade nata, a graça e precisão de seus movimentos, a elegância de suas formas, o vigor da sua musculatura, seu "aplomb" e altivez, o ar de distinção e garbo que põe nas suas ações, a nobreza e fidelidade dos seus afetos que, não raro, se entranham na abnegação completa e, a emoldurar todas estas virtudes, esta esplêndida marcha natural em tríplice apoio que traz o selo de sua carga genética e faz dele este dócil e inseparável companheiro de todas as horas e de muitas jornadas.

Montar num cavalo com tais aptidões faz-nos sentir, com maior razão, como aquele marroquino que, de olhos perdidos no deserto, balbuciou, em tom de prece, que "o trono de Deus está no dorso do meu cavalo".

Geber Moreira
Haras Arapoca
Além Paraíba - MG
Árbitro de Eqüídeos

      

 

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