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       A CULTURA DA MARCHA NATURAL DE TRIPLICES APOIOS

A Equinocultura brasileira tem o privilégio  de possuir 4 raças equinas de MTA – Marcha de Tríplices Apoios, e uma raça asinina, a Pêga, também de andamento marchado de média velocidade. As raças equinas são representadas pela Mangalarga Marchador, Campolina, Campeiro, Piquira. A raça Mangalarga não foi incluida porque o andamento tipico é a Marcha Trotada, na qual os triplices apoios não são de ocorrencia prevalente, mas sim os apoios monopedais e quadrupedais, que são inseridos dentre as assimetrias de sustentação dos equideos de MTA. Vale esclarecer que ainda assim, a Marcha Trotada difere do trote convencional, basicamente porque os momentos para as trocas de apoios diagonais podem ocorrer na forma de uma suspensão mínima, apoio quadrupedal ou apoio monopedal. Ainda há também um estilo caracteristico na Marcha Trotada, com deslocamentos mais articulados e alçados em relação ao estilo do trote convencional.  Obviamente, havendo na sucessão de passadas algum momento de perda de contato com o solo, o andamento não pode ser considerado como marchado. Todavia, na atual população da raça Mangalarga Marchador, um incontavel numero de animsis apresenta diagonalidade bem próxima daquela observada na raça Mangalarga, ou até maior nos casos de suspensão nítida.

Infelizmente, a verdade às vezes incomoda, mas precisa ser dita. Estamos perdendo a cultura da marcha natural de triplices apoios, que foi justamente o motivo da cisão da raça Mangalarga, culminando com a fundação da ABCCMM. Na raça Piquira, que antigamente apresentava como marcha preferencial a Picada, atualmente o andamento que vence nas pistas é executado praticamente a dois tempos, sincronizado, rasteiro ( estilo “trote de cão”, de origem em animais oriundos do interior da Bahia - “Piquira caatingueiro”), de velocidade acima da normal, para dificultar a olho nu os momentos de suspensão. São os chamados cavalos velocistas, também usuais nas exposições da raça Mangalarga Marchador.

Caro leitor (a), desde criança, convivi com criadores antigos, que forjaram várias linhagens antigas de nossas raças de marcha. Tudo na vida evolui, a partir das tecnologias, dos novos conhecimentos. Contudo, a cultura da marcha natural de triplices apoios é imutável. Ela é ignorada, deteriorada, somente por obra dos famigerados “modismos”, de interesses, da política perversa de associações, pela própria falta de cutura da marcha.

É muito simples explicar a cultura da marcha natural de triplices apoios. Sabemos que os Padrões Raciais de todas as raças equideas de marcha desclassificam os animais de andadura e de trote. Do ponto de vista da mecânica de locomoção, a única forma de evitar estes andamentos  desclassificatórios é através da ocorrência dos momentos de triplices apoios, que serão tanto mais definidos quanto maior for a dissociação dos bipedes, seja na lateral ( marcha picada ) ou na diagonal ( marcha batida ). Os apoios diagonais e laterais ocorrem em todas as marchas completas, de qualidade. Sucedem-se intercalados por apoios tripedais, que nao podem ser sutis, mas sim bem definidos, em cada ciclo de marcha.. O resultado é a marcha natural de valor zootecnico superior, a qual, felizmente, é valorizada por uma massa incalculavel de usuários de cavalos de passeio e cavalgada.  Eles prezam a comodidade real, aquela sem atritos verticais.

Outro aspecto a ressaltar é que o excesso de velocidade é inimigo da marcha natural. Esta desenvolve-se com o aumento da velocidade do passo. Cada membro deslocando-se a seu tempo, em um nítido descompasso. Também não depende da ação de embocaduras ou de equitação. Ela já se manifesta nas crias, ao lado de suas mães. Ja na fase de adestramento de sela, é como se os cascos flutuassem sobre o solo, tendo o adestrador que se preocupar apenas com a correção da postura ( posição e estabilidade da cabeça ), das respostas aos comandos principais da equitação, o desenvolvimento da amplitude das passadas, a manutenção de uma boa regularidade. Ao contrário, os adestradores perdem tempo na ingrata tarefa de tentar “amaciar”  os andamentos.

Estamos perdendo a cultura da marcha natural de triplices apoios. Hoje já não se adestra cavalos marchadores como antigamente. A equitação rural típica foi substituída pela equitação estilo classico, e até mesmo estilo militar. As embocaduras geralmente não são apropriadas aos cavalos de marcha natural de triplices apoios, mas sim àqueles de marcha diagonalizada, ou porque não dizer, de marcha trotada, trote desunido ou até mesmo trote convencional. As mãos que hoje lapidam um marchador, não são as mãos que herdaram a sensibilidade por trás da legítima cultura da marcha. Muitos olhos que hoje selecionam cavalos marchadores estão cegos pela frieza da genética dominante dos andamentos diagonalizados. Muitos julgamentos que deveriam servir para alavancar o processo de melhoramento genético, levam sim a resultados que descaracterizam a razão de ser um exemplar marchador, na essência da palavra, que deveria justificar o nome de sua raça, em letras garrafais: MANGALARGA MARCHADOR.


Lúcio Sérgio de Andrade – Zootecnista, escritor, pesquisador, instrutor de cursos de julgamento, casqueamento corretivo, equitação e adestramentoa de cavalos de MTAD – Marcha de Triplices Apoios Definidos- Informações no portal www.mundoequino.com.br

 

 

 

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